terça-feira, 22 de setembro de 2020

 


 

FENIX RENASCIDA

 

Tu és meu sentimento renascido
Do fundo da minh’ alma reanimada
Que agora se encontra ancorada
À espera de um sinal reconhecido.

Tu és aquela luz inesperada
Recebida em meu peito comovido
Onde meu coração meio perdido
Anseia uma energia renovada.

Minha Eurídice d’ alma arrependida
Pelo aroma que paira à minha volta
Suspeito uma esperança desmedida...

Rasga essa névoa em que estás envolta
Para que tu, qual “fénix renascida”,
Corras até mim só e sem escolta!


Frassino Machado
In ODISSEIA DA ALMA

domingo, 26 de agosto de 2018

O MÊS DA SENHORA DA PENHA




No mês da Senhora da Penha,
A mais bela de todas as Senhoras,
O mês de Setembro suave venha
E que abençoe as nossas horas.

O nosso mundo passa tão mal,
Cada hora é uma hora estranha,
Chega o Setembro consensual
No mês da Senhora da Penha.

Não é só o mês das colheitas
É o mês de todas as loas
E das promessas que são feitas
À mais bela de todas as Senhoras.

Os nossos tempos são de rigor,
Para o mundo que a paz não tenha
E p´ ra que a possa ter maior
Mês de Setembro suave venha.

A Senhora da Penha é bendita
Para nós nunca tem demoras
Que ela nos livre da desdita
E que abençoe as nossas horas.

Senhora da Santa Montanha
E da sacrossanta romagem,
Que Nossa Senhora da Penha
Dê luz e fé à nossa Viagem.

- Debaixo do Teu manto azul
Teu terno coração balança,
Desde esse norte até ao sul
Dá ao País nova Esperança!

Frassino Machado
In ODISSEIA DA ALMA


ACORDOS & ACORDO





“Ainda o Acordo Ortográfico”


Todas as artes literárias são mutáveis
E abrangidas por acordos convencionais,
Estruturados p´ las linguagens naturais
À luz da história e de culturas memoráveis.

Os alicerces são as falas essenciais
Que na alma dos povos brotam sustentáveis
Por canções e por poemas sempre admiráveis
Na sua origem, desde os tempos imemoriais.         

Somos nós que fechamos a alma dos acordos
Na vácua ilusão da humana transcendência
Tornando agreste o chão da culta convivência
E os laços que nos ligam rudes e amargos…

Deixemos os acordos, por si mesmos, fluir
Usando da linguagem com sabedoria
E com arte literária, mas sem fantasia,
Propiciando qu´ a Língua possa reflorir!

É este o grande ACORDO – o Acordo que s´ impõe –
Pelo carácter e energia de que dispõe!


Frassino Machado
In RODA-VIVA POESIA



segunda-feira, 6 de agosto de 2018

UMA CRÓNICA DE VERÃO




“Na aldeia do Baraçal” (*)

Nesta aldeia do Baraçal
Respeitou-se a tradição
Fez-se festa consensual
Em honra de S. Sebastião.

Ninguém assumia o evento
Nem a responsabilidade
Mas, no preciso momento,
Ressurgiu a boa vontade.

Álvaro, Cândida e João,
Eis a tróica destemida,
À tarefa deitaram mão
Fazendo contas à vida.

Muita gente colaborou,
Não ficando ponto morto,
Todo o esforço resultou
E a festa foi a bom porto.

Na semana qu´ antecedeu
Co´ uma alma alegre e boa
Toda a gente conviveu
Na margem fresca do Coa.

Fez-se alegre caminhada,
Que já é tradicional,
Descansou-se da jornada
Co´ o picnic habitual.

No primeiro dia da Festa
Houve oração de vigília
Um pouco depois da sesta
Cantou o povo em família.

Manhã de festa na aldeia:
Missa solene, pois então,
Com a igreja quase cheia
Celebrou-se São Sebastião.

Não veio de fora o pregador
Mas não faltou o sermão
Pregou, à medida, o prior
Exultando à devoção.

     Actuou um coro afamado,
     Feito da prata da terra,
     Demonstrando, ensaiado,
     Que bela harmonia encerra.

Sob um intenso calor
Saiu à rua a procissão,
Sem a fanfarra a primor
Louvou-se São Sebastião.

Remanso em quente recinto,
Sede em calor abrasado,
Abriu-se como por instinto
Com todo o povo animado.

Terceiro dia, para fechar,
Onda Azul a condizer
Fez toda a aldeia delirar
Em sardinhada a valer.

Sardinhas quentes e boas,
Com sumos, febras e tinto,
Toda a gente cantou loas
Pois ninguém ficou faminto.

Houve por cima das mesas
Alguns sabores gostosos
Finuras de sobremesas
Pra satisfazer os gulosos.

E daqui resultou e bem
Euforia p´ la noite dentro
Sem brilho não houve ninguém
Com muito ou pouco talento.

Dançaram todos: as crianças,
Os adultos de qualquer idade,
E emigrantes, com esperanças
Pra matarem as saudades.

Do churrasco – os laborantes
E os serventes – com todo o brio,
Dançaram, mas vigilantes,
Cumprindo o seu desafio…

São assim de norte a sul
Todas as festas de Verão,
Debaixo de um céu azul
Lateja sempre o coração…

Com zelo e distinto cuidado
E com mordomos a condizer
Fica, na aldeia, aprovado
Que mais Festas há-de haver!


Frassino Machado
In AS MINHAS ANDANÇAS

(*) – Baraçal, 6 – 08 – 2018


quinta-feira, 4 de junho de 2015

MONTANHA SAGRADA



                         “Às três Senhoras do Monte”

No alvorecer daquela fresca madrugada
Com cintilante e claro sol a despertar
Alcandorei suando, com a alma a latejar,
O alto cume desta montanha sagrada.

Em granítica ermida, meio abandonada,
Vestida dum silêncio calmo de admirar
Ali estão três Senhoras prontas a chamar
Por todos os romeiros co´ a vida angustiada.

Senhora do Carmo, da Conceição e da Piedade,
Três nomes de Maria, p´ la brisa recolhidos,
Recriaram-se em mim com toda a ansiedade
Queimando d´ emoção os meus próprios sentidos.

Senhoras minhas, que me tendes aprisionado
Nas marés-vivas desta humana comoção,
Aqui, perto do céu, sentindo-me extasiado
Quero deixar-Vos minha sincera oração.

Pressentindo à minha volta marginais estragos
Também agora Senhoras - Senhoras da bonança -
Neste solitário Monte, que à alma dá afagos,
Peço p´ ro meu País uma paz e uma esperança!


Frassino Machado
In ODISSEIA DA ALMA


O SEGREDO DO ABADE



                           “Em trovas românticas”

Contou-me pela tardinha
Uma mulher de Guardizela
Que lhe contaram a ela
Esta lenda tão velhinha.

Venha ver, meu caro senhor,
No chão a placa pisada
Dizem que ali enterrada
Jaz uma história de amor.

Está fora do campo santo
E ninguém sabe porquê
O nome já mal se vê
Mas é p´ ro povo um espanto. 

Aqui na aldeia viveu
Há muito tempo passado
Um tal barão abastado
Que na guerra se perdeu.

Quando os franceses chegaram
À sua casa e aos quintais,
Galinheiros e coisas mais
A toda a gente limparam.

Foi tão grande a confusão
Que a criada, meia tonta,
Fugiu e ninguém deu conta
Com uma menina p´ la mão.

Dizem que era do fidalgo
A criança que ela levava
E por tudo procurava
Conseguir pô-la a salvo.

Saber já nunca se há-de,
Se era dos dois a menina
Chegando, depois da matina,
Ao pardieiro do abade.

Como era de madrugada
E se via bastante mal
Concluiu que era o passal
E não ficou descansada.

Estava ela assim pensando
Quando o abade a descobriu
E, ao vê-la, logo sorriu
Sua criança acarinhando.

- És tu, Mariana infeliz,
De quem é esta menina
Ainda tão pequenina
Que à tua sorte condiz?

- Filha minha, senhor prior,
Mas eu tenho muito medo,
Se descobrem o meu segredo
A desgraça será maior…

- Não temas, ó rapariga,
Teu segredo fica comigo
Apenas a Deus o digo
Pra que ninguém te persiga.

- Ficas cá, como criada,
Se alguém notar eu direi
Que a menina que criei
É minha filha adoptada.

- Senhor prior, senhor prior,
Tirou-me de mim este peso
E o fidalgo que está preso
Não saberá minha dor.

- Se ele qualquer dia voltar
Eu logo desapareço
E assim a Deus agradeço
Por, finalmente, a salvar.

Aqui tem a estranha história
De um segredo de espantar
Que nunca se há-de apagar
Nesta aldeia com memória.

Logo que a guerra acabou
Soube-se p´ la voz do vento:
A menina foi p´ ro convento
E o tal fidalgo se matou.

Mariana, deu em demente
Passando as horas a fio
Debaixo do sol ou ao frio
Partindo pauzinhos ausente.

Este segredo é mistério:
O abade ficou na lenda
Sem a divina reprimenda
P´ ra tão grande vitupério!

Frassino Machado
In CANÇÃO DA TERRA


terça-feira, 12 de maio de 2015

SONETO-EPIGRAMA ANTI-FASCISTA


Na Foto - Mercado das vacas, em Vila de Touro, anos sessenta.

Nas lusas terras do interior -
Por alturas da guerra colonial -
Era comum e muito natural
Ir vender o seu gado, à maior
Burros e cabras, ovelhas e vacas,
Pregões de boca, guardas e patacas,
Copos de três, aguilhões a rigor.

- Tem aí, ti Manel, sua licença?
- Menos de meia polegada há-de ter,
Se não o tiver, terei já de o prender…
A bem ou a mal aqui vai esta avença!
- Ah, guardas dum cabrão, vindes cá roubar?
- Não cair ele um raio nos c. de Salazar…
Tomai lá, que vos faça boa mantença!

(E o pobre do ti Manel co´ a cabeça louca
Ficou a praguejar, co´ o credo na boca!...)


Frassino Machado
In CANÇÃO DA TERRA